23.3.06

HABLANDO MAL
Na Argentina não poderia deixar de discutir sobre Pelé e Maradona. Lá pelas tantas, o Shaman, amigo da Mari que eu conheci por lá, me disse: "Deixa a gente, que a gente só tem ele. Vocês têm Pelé, Zico, Branco, Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Adriano, Robinho..." e disparou a falar nome de brasileiro.
E me explicou que o povo gosta do Maradona porque ele é assim: do povo. É um cara que não estudou, só fala abobrinha e ganha grana pra fazer o que gosta (não é o Lula não, viu). Tatua Che Guevara e vive no luxo. Não sai da imprensa e briga com todo repórter. "Es un villero", diz. "Villero" é quem vem de vila, no sentido mais pejorativo do termo. E eles adoram essa dualidade de Don Diego. Pois bem.

Quem quiser dar muita risada e depois sentir raiva do dinheiro gasto com a entrada, "Amando a Maradona" (Amando a Maradona - una película sobre el amor incondicional, 2005, Argentina) vai passar no 11º É Tudo Verdade, festival de documentários que teve início hoje (23/03) e vai até dia 02/04 que vem em São Paulo e no Rio. Em Campinas e em Brasília eu não sei quando começa nem termina. Mas no site tem.
Tive o privilégio e o desprazer de pegar uma das primeiras sessões do filme no dia de seu lançamento, em Buenos Aires. O roteiro é péssimo, a fotografia é horrível, os depoimentos são fracos e a edição piorou tudo. O tema tinha tudo para dar um belo produto - a idolatria absurda que os argentinos têm pelo maior jogador que los hermanos já tiveram. Mas o filme é um lixo.
Começa com um idiota de uns 20 anos se derramendo em lágrimas e dizendo que ama o coiso mais que a seu próprio pai. Aí vêm os marmanjos tatuados, a turma com a camisa nº 10, a infância sofrida, e a inacreditável igreja maradoniana. Aqui eu me recuso a botar maiúsculas por respeito ao Pelé. Que é exatamente onde eu queria chegar.
A maior parte do documentário é ocupado com tentativas de mostrar que o dito cujo é melhor que o Rei. Imagine - quem assistiu Pelé Eterno viu os maiores jogadores do mundo, inclusive argentinos, elogiarem nosso camisa 10 - Valderrama, aquele cabeulo feio da Colômbia, dizendo que Maradona é seu ídolo. Só podia dar naquilo! Mas isso é o de menos.
Como todo argentino, o filme tenta, desesperadamente, mostrar a suposta superioridade de Dieguito. Aí aparece ele gordo, em Cuba, durante a recuperação química, perguntando: "Quem é Pelé? Esse tipo aparece com uma gravata dos EUA", referindo-se à época que Pelé jogou por lá. É, no mínimo, hilário. E o gordo refestela-se, às custas do povo cubano, no palácio castrista.
E a culpa a João Havelange pela desclassificação de Maradona da Copa 94, por dopping? Preste atenção, porque você vai rir tanto que vai perder a melhor parte do filme.
Lá está, à sua disposição, esta peça rara. Aliás, os argentinos terão sempre que se contentar com o segundo lugar. Tanto que até Pelé Enterno - que é uma porcaria, não fosse pelos gols - é melhor que o filme argentino.

O magro sou eu. Lá embaixo fica Comodo Rivadavia, na Argentina (aí nos posts vc acha sobre ela). À esquerda, Shaman, amigo da Mari que, depois da hospedagem no ano-novo, virou meu amigo também. E lá longe é o mar. Frio demais pra um brasileiro.
SEM%
É só procurar por aí que acha. Nos últimos dez anos, o Brasil cresceu menos que a média mundial (2 e poucos porcento contra três e tantos porcento, respectivamente). A renda do brasileiro, menos ainda. E ainda por cima - ou por baixo, sei lá - não bate 20% da renda do norte-americano. Tá certo que a gente não faz guerra e nem tem indústria com mão-de-obra infantil na Ásia, mas isso não é mais desculpa. Ainda mais porque Argentina, Chile e México também não fazem nem têm e estão lá, um tantão na nossa frente.
Isso sem falar em Índia e China.
Mas aí é covardia.

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IÔ-IÔ
Do jeito que as coisas estão indo, este país está voltando.

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VRUMM
O Congresso, essa piada pronta, nos tirou de zoa de novo. Dezoito envolvidos. Sete - no voto secreto, lógico - absolvidos. Quatro covardes renunciaram. E ainda houve quem dissesse que deputado inexpressivo quase não mandava no mensalão, não tinha poder algum, não era peça-chave no esquema.
Eu podia esperar de tudo. Menos que no Congresso também tivesse aviãozinho.

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MANO
Falando em aviãozinho, pela primeira vez a Globo mereceu um e-mail meu parabenizando algum programa. "Falcão - meninos do tráfico" foi, a propósito de onde passou, fantástico. Alguém aí imaginaria que a toda-poderosa ia dar 58 min no horário nobre de domingo para alguma coisa que não fosse o nascimento da Sasha? Pois é, o Fantástico me surpreendeu com essa.
Mas o meu sincero respeito e meu "muito obrigado" vão para MV Bill e Celso Athaíde (ou Athayde?). Seis anos de um trabalho no qual realmente acreditaram. Filho pronto, esperaram dois anos por um momento mais propício. Espertos que são, deixaram para o ano em que o debate vai rondar qualquer mesa de bar. E botaram na sala de jantar isso que o brasileiro tanto quer dar às costas.

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FUTILIDADES, QUE NINGUÉM É DE FERRO
All Star dura uns oito meses no meu pé. Não sei por quê, mas a sola sempre acaba. Ainda dá pra levar - em dias de chuva, nem pensar - por um ano. mais que isso, já era.
Comprei um novo, tal de All Star Converse. Do pretinho básico mesmo, com a charmosa linha vermelha. Segundo consta, dura mais. Preferiria que durasse menos. Ficou maior e mais largo, mas machuca o pé. A palmilha ganhou reforço no calcanhar - quem usa sabe -, mas faz muito barulho. E o pé deslisa.
Não aiidanta. Clássico é clássico. E em clássico não se mexe.

14.3.06

Cidade grande é assim. Tanta coisa pra fazer que nem dá tempo de fazer tudo.
Cidade pequena é assado. Tanto tempo pras coisas, que seria bom se tivesse tanto.
Uma certa saudade de Londrina - onde o tempo alcança o banho, o inglês, o cinema, o boteco -, uma certa admiração por São Paulo - onde está a aula que procura, o filme que não passa, o bar diferente.

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A trabalho em Ponta Porã (MS), descobri que o Paraguai não é só a Ponte da Amizade. Lá o País corre ali, a um passo da avenida. Alcança até sentar no Brasil pra amarrar o tênis no Paraguai. Um tripé novo, uma camisa nova. Quer conhecer? Só não estranhe a Polícia Federal, que grita em sirene a noite toda pela cidade.

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Tem vontades que não desaparecem. Ir pra Europa sentir cheiro de antigo, ir pra Superagüi (de novo) ouvir cantar o Cara-Roxa. E outras que vêm e vão, ao sabor de Brasília. Acho que são os ecos da escola, que depois das férias me chamam aquelas sedes de tempos acadêmicos. Pô, cadê o povo? A Câmara, lugar do cidadão por excelência, vira as costas pro Brasil e guarda embaixo das asas a corrupção. Ninguém mais é cassado, ninguém mais fala nada. E o povo, cadê? Ah, quando se mexer eu quero ver. Não digam que eu não avisei.