25.7.06

uma esposa rosnando no portão é mais
do que qualquer homem pode suportar.

Bukowski, em "Eles, todos eles, sabem" (Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Tradução de Fernando Koproski. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005).
Pontual, ferino e certeiro, como sempre.
Amém, velho Buk, amém.

22.7.06

Algumas vezes me tomo de uma esquisita compulsão: leitura. Leio sempre, mas às vezes vão-se uns três, quatro livros por semana. No começo de julho estava assim. Havia redescoberto Fante e visto duas faces de Hemingway, retornado aos contos de Dalton Trevisan e atacado alguns textos de política externa e relações internacionais, além de um ou outro artigo garimpado nos jornais. Nessas horas até comendo me vejo com os olhos percorrendo linhas por aí.
Escrevi um qualquer coisa sobre isso. Desses textos brutos e danados de ruins que a gente faz pra gente mesmo e torce pra ninguém descobrir. Por força de vaidade, talvez, embora eu acredite que seja mais pela falta de vergonha que a distância virtual nos permite, deixo aí parar quem quiser ler, meu destempero quando obsecado pelas minhas companhias solitárias: os livros.


OBSESSÃO, OBSESSÃO, OBSESSÃO

O que é essa louca obsessão, esse desespero, esse quase-prazer doentio (que me dói sem ele), essa aflição-das-mãos-vazias, que não me deixa ficar sem livro?
Quando acaba um, uma estante inteira pula no meu colo implorando a página aberta, a frase decorada, o texto admirado, o autor glorificado. E quando se vai um e a mão fica sem companhia, os dedos ficam tamborilando no ar, como um ensaio louco, virando páginas e páginas que não existem ali, onde estão?, e os olhos correm os letreiros da rua, a cidade inteira a se transformar em um livro destemperado, sem regras nem estilo, mas com vontade, com brilho e com poesia.
Nem bem um descansa, o leitor compulsivo já dedilha e dedilha lombadas cintilantes. "Qual, qual o mais belo, o mais triste, o mais ferino, o de agora?" E ali tomba, como que por acaso, um qualquer – "Qualquer? Não há qualquer na tua estante, decidida a ser fortaleza, a ser majestosa guardiã de tantos aforismos, de tantos versos, de tantos loucos e desvairados, bêbados, solitários, viajantes e perdidos" –, que repousa triunfante, e agita as folhas e cospe letras e delicia a língua na boca – que repete calada a pontuação perfeita, a vírgula exata, o ponto no final certo – e se faz escutar mesmo sem dizer nada e toma de inveja tantos outros ali, sepulcros, uns que nunca mais se abrirão, outros que o tempo deixa passar, outros que irão a outras mãos, outros que serão para sempre os primeiros, e outros que, para sempre, serão outros; e todos, todos eles, todos meus, todos livros, são eu. Sou eu na estante, sou eu em páginas, sou eu palavras, versos, poemas, letras, pontos, e vírgulas, e vírgulas, eu sou as vírgulas exatas, eu sou o ponto final que nunca marcará a última página; eu sou o livro, a vida infinita, o bêbado, o viajante, o solitário, a prostituta, o milionário, o menino pobre, o velho pescador, a cozinheira. Sou eu, meu deus, Eu sou deus, Eu sou o livro, e as letras, e as minhas vírgulas e pontos finais, Eu sou Eu, e por isso não me basto e procuro mais, até que me ache por completo na dança de letras e vírgulas e pontos no salão do infinito.
E só assim me sou completo.
Não vou votar no Lula. Me sobra Alckmim. Não sei se vou votar nele, mas não queria anular meu voto. Heloisa Elena e Cristóvam Buarque, sem chances. Gosto dos dois, mas como senadores. É o tipo de político que falta no Brasil. Mas para presidente, necas. Não vou votar no Lula por motivos óbvios: corrupção. Eu sei, todos tiveram, o FHC tem histórias mal explicadas, mas Lula veio justamente para acabar com a pouca vergonha. Que só cresceu.
Não gosto o Alckmim. E me assusta sua política de segurança pública: mais prisões. Para usar a gíria bandida, mais faculdade. Como se a solução fosse varrer tudo para baixo do tapete - ou para dentro da carceragem. Sob seu comando São Paulo construiu presídios e lotou as celas, hoje com mais de 140 mil presos. E deu no que todo mundo viu.
Dias atrás escrevi sobre isso. Prometi mandar para algum jornal, mas desisti.


SEGURANÇA PÚBLICA PARA QUEM?

Soluções para a crise na segurança pública de São Paulo vêm aos montes agora, mas algumas em especial encontram voz em qualquer adolescente com um pouco menos de vídeo-game na cabeça. Educação e emprego, para evitar futuros delinqüentes, e penas alternativas para criminosos de menor periculosidade.
É desnecessário discorrer sobre a mudança social que uma boa educação pode possibilitar. Para aprender de verdade, entretanto, o estômago do estudante não pode competir com a lousa. Seja na escola ou em casa, o jovem carece de alimentação adequada para conseguir assimilar conteúdo e raciocinar corretamente. E emprego... bom, o tema dispensa qualquer comentário.
O Estado talvez encontre nas penas alternativas um modo de diminuir a tensão gerada pelo crime organizado. Se a bandidagem chama o presídio de faculdade, imagine o que um reles batedor de carteira não aprende lá dentro. Entra trombadinha e sai membro de organização criminosa. Convive com seqüestradores, assassinos, ladrões de banco, falsificadores e todo um leque de contraventores de todos os portes, ajudando a abarrotar as já superlotadas cadeias nacionais.
Para quê serve a prisão? A meu ver, é um castigo social imposto àqueles que fogem das regras estabelecidas para a boa convivência em comunidade. Alija-se o criminoso da sociedade, na esperança de desencorajá-lo a cometer novos delitos. Também é – ou deveria ser – uma forma de reintroduzi-lo no convívio social, após cumprida a pena, como um membro, e não pária, da comunidade.
A população carcerária do estado de São Paulo passa da centena de milhar. A maioria passa o dia em celas apertadas junto, com dezenas de outros condenados, fazendo nada. É de se imaginar o tipo de conhecimento que adquirem nesta faculdade. Os presos criaram uma sociedade própria, com regras estabelecidas por eles e destoantes dos códigos e regulamentos que norteiam a vida de quem anda na linha. Assim, a cadeia não é mais um castigo, já que ali o bandido encontra uma comunidade onde ele facilmente se integra.
Presos de menor periculosidade e de fácil reinserção social deveriam estar fora das grades, cumprindo penas como serviços comunitários, varrição de ruas, obras em igrejas, limpeza de terrenos baldios e fundos de vale, auxílios em asilos e creches, e mais um sem-número de opções. Aprendem valores como disciplina, hierarquia, respeito e auto-estima, além de darem importância ao trabalho e às conquistas provenientes dele.
Já os perigosos, estes sim, devem ser trancafiados atrás de portões de ferro. No entanto, assim como os outros, também devem ser condenados ao trabalho. De preferência, trabalho manual e cansativo. Depois de uma jornada, tal qual todo trabalhador honesto, não irão querer saber de nada além de uma boa noite de sono. E adeus rebeliões, adeus facções, adeus terror nas ruas. De quebra, o Estado gastaria menos com o sistema carcerário e teria, imagino, menos problemas com segurança pública.
Para todos os efeitos, o condenado que trabalhar tem parte de sua remuneração guardada em poupança, parte usada para gastos pessoais (sabonete, roupa de cama etc.) e parte usada para seus gastos prisionais. A redução na pena é um estímulo para o próprio continuar no trabalho. Os benefícios são muitos, muitos são os exemplos já existentes e muitas são as pessoas que discutem a implementação destas idéias. Lamentavelmente, poucas são as chances de elas virem a ser postas em prática. Poucas, também, são as vontades dos governantes e uma – há tempos esperada – política de Estado, e não um joguinho de toma-lá-dá-cá e de empurra-empurra entre grupos e partidos que se revezam no poder.

19.7.06

Não me chamem de anti-semita, mas...

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) dizimou a Europa Central. O conflito central era entre católicos e protestantes na Alemanha (que ainda não era Alemanha), tanto por motivos religiosos quanto políticos. A Guerra teve pé na França e na Suécia, e deixou danos gravíssimos no continente. O maior de todos foi demográfico. Quer dizer, morreu gente pra caramba. Algumas regiões da Alemanha só igualaram a população existente antes do conflito no século XX, 300 anos depois de passado o confronto.
E daí? Daí que depois dessa guerra começou-se a falar em direitos e afins. Nada tão pontual como crimes de guerra, mas descobriu-se que há limite para tudo. Até para a guerra. E um dos limites é o respeito à população civil. Isso foi há mais de 300 anos, antes da Revolução Francesa, e portanto não era nada tão bonitinho, não. Mas já mostravam preocupação com o dito povo.
O tempo passou, e depois da Segunda Guerra houve a mesma discussão. Por exemplo: Na época, os EUA jogaram as bombas sobre Hiroshima e Nagazaki para forçar a rendição do Japão. Na verdade, puniram os civisi pelos erros de seu governo. Hoje isso já não seria aceito. Suponhamos que Sadam Hussein merecesse tudo aquilo. Pois bem. Tirá-lo do poder e sufocar seu governo é uma coisa. Outra coisa - que os EUA nem ninguém um pouco civilizado seria louco de fazer - é dizimar a população com uma bomba atômica por culpa do dirigente. É óbvio que há torturas e execuções cometidas por soldados ianques no Iraque, mas nada que possa ser chamado de um ataque em massa contra civis por conta de seu regime político.
Todo esse rodeio para dizer: por quais razões desconhecidas ninguém dá a mínima pelo ataque israelense contra o Líbano? Já são 280 civis mortos, e os militantes do Hessbollah que morreram não enchem duas mãos! Segundo consta, os feridos batem a casa de 850 pessoas. Meio milhão de pessoas - meio milhão! quinhentos mil cidadãos! - abandonaram suas casas com medo do bombardeio.
Ora, qualé? Israel já passou dos limites. Defender-se vá lá. Desmantelar um grupo terrorista, idem. Mas fazer isso às custas de vidas inocentes? Em que século nós estamos? Em que mundo vivemos? Só existem direitos para ocidentais? E deveres? Só para árabes? Qualé, gente, qualé? Eu não consigo acreditar neste absurdo.
Concordo que existam terroristas. Concordo que tem um bando de loucos por aí com bombas amarradas no corpo. Mas também concordo que Israel roubou - sim, roubou - território palestino.
O território onde foi criado Israel era de domínio inglês. Sem forças, depois da Segunda Guerra, pra continuar com ele, resolveu doar o espaço para a formação do Estado judeu. Não levaram em consideração - eles nunca levam - os milênios de civilização árabe que existia ali. Então Israel foi crescendo, trazendo gente de todo canto, e precisava de mais terra pra plantar. Não preciso dizer de quem era a terra.
E agora, por causa de dois soldados, um Estado julga-se no direito - e o pior, todo mundo concorda - de atacar Deus (no caso, Alá) e o mundo. É o tipo de comportamento que se espera de terroristas: atacar quem não tem condições de se defender. Vemos um exército nacional, um país, um Estado, atacar brutalmente uma população de mulheres, crianças, velhos e trabalhadores. Vemos um governo destruir rede elétrica, reservatórios de água (devo lembrar que lá é deserto pra todo lado?), aeroportos, estradas e caminhões de ajuda humanitária. Vemos um regime democraticamente eleito usar da força e massacrar um já combalido Líbano, um povo suplicante de vida, uma nação arasada que insiste em se preservar, uma população que sofre nas mãos do Hesbollah. E quê?
Ao invés de sufocar regimes que defendem o grupo, como Síria e Irã, preferem brincar de pontaria em casas de família. Por que será? Medo? Cagaço puro de quem tem exército para revidar? Ou puro descaso com árabes (mesmo que no Líbano haja cristãos)? Seja lá qual for a resposta, ela é preocupante. Israel faz e desfaz na região, como se fosse um grupo terrorista cuja única missão é acabar com o outro lado. Igualzinho o Hesbollah.

Não sou anti-semita. Também não sou anti-americano, ou anti-chinês, ou anti-sírio, ou anti-venezuelano. Mas tem uns regimes políticos por aí que vou te contar...

12.7.06

Continuando o post anterior, Patagônia. Fotos por Paulo e/ou Mari.




Do lado de cá, Patagônia. Depois do Estreito de Magalhães, Terra do Fogo.

Isso é o que se vê ao chegar em Ushuaia (abaixo): o Canal de Beagle.

Para quem não viu - e para quem quer rever - aí vão algumas fotos da viagem à Patagônia, passando antes em Buenos Aires e terminando em Ushuaia. Quer saber mais? Aqui no blog tem, é só procurar. Foi em janeiro/06.
Só para lembrar: Estas fotos foram tiradas com máquina digital. As feitas com máquina profi de filme ainda ão foram escaneadas. E algumas estão simplesmente fantásticas. Quer ver? Me dê um scanner que eu coloco tudo aqui.


Biblioteca de Buenos Aires. Argentino gosta de ler, mas tem que aprender arquitetura.

Imagine o trampo que foi construir o Obelisco, no meio de uma puta avenida....

Quer estudar Direito em Buenos Aires? É só subir a escadaria, com os cumprimentos da Mari.

O Teatro Colón é passeio obrigatório na capital argentina. Se vocë conhece a cidade e não passou por lá, pode voltar.

Eu no Caminito, fazendo o de sempre: espiando o mundo por trás da lente, escolhendo um pedacinho pra ficar ali, congelado, lembrança tímida parada no tempo.

Buenos Aires deve ter uma praça pra cada família. Sério. O povo fica lá, esticado. O problema é que todo mundo leva cachorro pra andar na grama. Geralmente tem gato de rua também. Mas se vocë desviar da sujeira, é gostoso aproveitar pra descansar. Detalhe: a foto foi tirada por volta das 20h30.

Literatura de bordo: "Viajante Solitário", de Jack Kerouac.

***

A Patagônia dispensa comentários.


9.7.06

Irreverente, baladinha, rápido e certeiro. Este é o som dos Imperdíveis, bandinha que faz um roquenrou honesto e divertido. Ou, como dizem os próprios, rock popular brasileiro, com direito a versão de Fico Louco, do grande Itamar Assumpção.