HOJE EU ODEIO SÃO PAULO
Visitar Londrina é melhor que ir à praia. Voltar a São Paulo...
Em Londrina tudo ainda está lá, do jeito que ficou e como deveria estar. O Bar do Jota, o Igapó, a lua grande, imensa e apetitosa como rosquinha que saiu do forno. A casa da vó, o colo da namorada. Em São Paulo, um bom-dia de céu cinzento, bruto, ardido até a alma. Dias assim eu odeio São Paulo.
Odeio o teto escuro às 10h da manhã, odeio o trânsito louco, sem sentido e buzinado. Odeio essa burrice umbiguista de quem, de tanto ter tudo, não sabe onde fica nada além de Praia Grande ou depois do ABC. Odeio odeio odeio.
Odeio como quem desgosta de xarope amargo, dor-de-dente e ônibus perdido. Odeio pesado, desses que carolas dizem “Deus me livre”.
Deixar Londrina causa estranheza à Cidade Grande – e Cinza, que parece ainda mais sombria e solitária. Deixar Londrina parece demência demorar 1h15 pra ir trabalhar, mais 1h30 pra voltar. Deixar Londrina faz odiar São Paulo e todas suas esquinas de calabresa, marguerita, mussarela e aliche.
São Paulo amanhece triste, passa o dia correndo e deita sozinha. São Paulo cospe na rua, não pede licença e empurra o tempo todo. São Paulo fede, é feia e escuta pagode o dia inteiro. Não conhece o lado de lá e diz isso com orgulho, porque o lado de lá existe em São Paulo – ou, pelo menos, um restaurante.
São Paulo olha por cima e arrota ser grande, mas tem medo de andar de trem. Não dorme, mas tranca tudo à noite (de dia também). São Paulo tem medo de gente, de escuro e de chuva.
Londrina chove bonito, anda a pé e vai-se perto. Londrina é quente, abraça e conhece o visitante.
Mas não tem emprego. E a Mari vai embora.
Acho que é isso, mas hoje eu odeio São Paulo.
28.3.05
9.3.05
7.3.05
Por estas noites precisava de doses cavalares de rock. Uma dessas noites de gala, quando tudo sai perfeito. Seria capaz de ouvir a noite inteira Nirvana, The Clash e Ramones. Nada melhor que o entorpecente refrão de "Should I stay or should I go?", a histeria de "Smeels like teen spirit" ou as poucas - e enbriantes - notas de qualquer música do clã Ramone. O hipnótico ritmo de "Paranoid", do Black Sabbath, abriria a noite com maestria. Nada de Strokes, Pearl Jam, The White Stripes, Pixies, The Hives e tantos outros que recheiam minha lista de "preferidos". Apenas os clássicos.
Cansado que estava (andara o dia inteiro atrás de apartamento), dormi cedo, ainda às 20h. Acordei uma hora depois, com uma horrível enxaqueca. E Balão Mágico (sim, aquele do Juninho Bil) martelando na cabeça.
Meu primeiro fim de noite sem botar o nariz na rua.
Cansado que estava (andara o dia inteiro atrás de apartamento), dormi cedo, ainda às 20h. Acordei uma hora depois, com uma horrível enxaqueca. E Balão Mágico (sim, aquele do Juninho Bil) martelando na cabeça.
Meu primeiro fim de noite sem botar o nariz na rua.
4.3.05
Ganhei de aniversário um dos melhores livros que já li. Joel Silveira, autor de "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", nascido em 1918 e ainda ferrenho, prova que jornalismo também pode ser uma deliciosa literatura. Se o cobrador do ônibus apelidasse os passageiros de todo dia, seria eu "aquele do livro preto embaixo do braço". Excelente a passagem, ácida, sobre os grã-finos paulistanos, escrita em 1943:
Os motores das fábricas estão trabalhando muito. Já não há vagas nos domínios dos Matarazzo e dos Crespi. Os enormes portões da Mooca não se fecham: expulsam, de manhã bem cedo, uma turma de gente cansada e cinzenta, engolem mais gente que se cansará durante o dia. Os relatórios, sempre exatos, nos contam coisas muito importantes. Dizem, por exemplo, que os lucros dos Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para seus operários. Fará também uma maternidade para as mulheres dos operários, não uma maternidade elegante e cara, a melhor da América do Sul, como a que ele ergueu lá para os lados da avenida Nove de Julho; apenas uma maternidade sóbria, mas que seja de graça.
Excelente presente. Tem gente (como a Barbara e a Marcela) que sabe exatamente o que a gente quer.
Os motores das fábricas estão trabalhando muito. Já não há vagas nos domínios dos Matarazzo e dos Crespi. Os enormes portões da Mooca não se fecham: expulsam, de manhã bem cedo, uma turma de gente cansada e cinzenta, engolem mais gente que se cansará durante o dia. Os relatórios, sempre exatos, nos contam coisas muito importantes. Dizem, por exemplo, que os lucros dos Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para seus operários. Fará também uma maternidade para as mulheres dos operários, não uma maternidade elegante e cara, a melhor da América do Sul, como a que ele ergueu lá para os lados da avenida Nove de Julho; apenas uma maternidade sóbria, mas que seja de graça.
Excelente presente. Tem gente (como a Barbara e a Marcela) que sabe exatamente o que a gente quer.
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