22.7.06

Algumas vezes me tomo de uma esquisita compulsão: leitura. Leio sempre, mas às vezes vão-se uns três, quatro livros por semana. No começo de julho estava assim. Havia redescoberto Fante e visto duas faces de Hemingway, retornado aos contos de Dalton Trevisan e atacado alguns textos de política externa e relações internacionais, além de um ou outro artigo garimpado nos jornais. Nessas horas até comendo me vejo com os olhos percorrendo linhas por aí.
Escrevi um qualquer coisa sobre isso. Desses textos brutos e danados de ruins que a gente faz pra gente mesmo e torce pra ninguém descobrir. Por força de vaidade, talvez, embora eu acredite que seja mais pela falta de vergonha que a distância virtual nos permite, deixo aí parar quem quiser ler, meu destempero quando obsecado pelas minhas companhias solitárias: os livros.


OBSESSÃO, OBSESSÃO, OBSESSÃO

O que é essa louca obsessão, esse desespero, esse quase-prazer doentio (que me dói sem ele), essa aflição-das-mãos-vazias, que não me deixa ficar sem livro?
Quando acaba um, uma estante inteira pula no meu colo implorando a página aberta, a frase decorada, o texto admirado, o autor glorificado. E quando se vai um e a mão fica sem companhia, os dedos ficam tamborilando no ar, como um ensaio louco, virando páginas e páginas que não existem ali, onde estão?, e os olhos correm os letreiros da rua, a cidade inteira a se transformar em um livro destemperado, sem regras nem estilo, mas com vontade, com brilho e com poesia.
Nem bem um descansa, o leitor compulsivo já dedilha e dedilha lombadas cintilantes. "Qual, qual o mais belo, o mais triste, o mais ferino, o de agora?" E ali tomba, como que por acaso, um qualquer – "Qualquer? Não há qualquer na tua estante, decidida a ser fortaleza, a ser majestosa guardiã de tantos aforismos, de tantos versos, de tantos loucos e desvairados, bêbados, solitários, viajantes e perdidos" –, que repousa triunfante, e agita as folhas e cospe letras e delicia a língua na boca – que repete calada a pontuação perfeita, a vírgula exata, o ponto no final certo – e se faz escutar mesmo sem dizer nada e toma de inveja tantos outros ali, sepulcros, uns que nunca mais se abrirão, outros que o tempo deixa passar, outros que irão a outras mãos, outros que serão para sempre os primeiros, e outros que, para sempre, serão outros; e todos, todos eles, todos meus, todos livros, são eu. Sou eu na estante, sou eu em páginas, sou eu palavras, versos, poemas, letras, pontos, e vírgulas, e vírgulas, eu sou as vírgulas exatas, eu sou o ponto final que nunca marcará a última página; eu sou o livro, a vida infinita, o bêbado, o viajante, o solitário, a prostituta, o milionário, o menino pobre, o velho pescador, a cozinheira. Sou eu, meu deus, Eu sou deus, Eu sou o livro, e as letras, e as minhas vírgulas e pontos finais, Eu sou Eu, e por isso não me basto e procuro mais, até que me ache por completo na dança de letras e vírgulas e pontos no salão do infinito.
E só assim me sou completo.

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